“quando o ouvia ... gostava de ouvi-lo” (Mc 6:20).
Nos dias de Jesus, a Terra de Israel vivia sob o domínio do Império Romano. A Galileia, governada por Herodes Antipas, era marcada por tensões políticas, corrupção administrativa, disputas religiosas e uma profunda decadência moral. Como hoje, o povo tentava sobreviver às pressões e influências externas, enquanto sua identidade espiritual se diluía em práticas de culturas pagãs. Foi nesse cenário adoecido que Deus levantou uma voz moldada no silêncio do deserto, com o propósito de trazer Sua verdade a um povo que já não conseguia reconhecê‑la.
João Batista foi essa voz. Filho de Zacarias — sacerdote da linhagem de Arão — e de Isabel — parente próxima de Maria — era também parente de Jesus; provavelmente primo de segundo grau. Seu nascimento, anunciado por um anjo, já apontava para a sua missão: “irá adiante do Senhor... para preparar para Ele um povo bem disposto” (Lc 1:17). Na linguagem profética, preparar o caminho significava remover impedimentos espirituais, despertar consciências adormecidas e nivelar o terreno moral para que o povo tivesse discernimento de reconhecer o Messias quando Ele chegasse. Era como endireitar estradas para a passagem de um rei — só que aqui a estrada era o coração de Israel.
Para isso, o profeta viveu no deserto da Judeia — onde o desapego o libertaria de qualquer dependência de aprovação, e a solidão não o distrairia da urgência de sua missão. Sua mensagem foi simples e sem rodeios: “Arrependei-vos, porque está próximo o Reino dos céus.” (Mt 3:2). Teshuvá, no hebraico, significa retorno: voltar para Deus e abandonar o caminho do erro. Já no grego, metanoia, significa mudança profunda de mente e direção; uma transformação interior que redefine escolhas. “Arrependei-vos” era mais que um convite — era um confronto. Uma palavra que denunciava o pecado e despertava a consciência adormecida do povo.
Tal exortação gerou desconforto em muitos ouvidos. Mas, curiosamente, Herodes — o então governador — “gostava de ouvi-lo” (Mc 6:20). O verbo shama expressa a ideia de “ouvir com intenção de obedecer”, mas fica evidente que o governante cumpriu apenas a primeira parte. Ele escutava, mas não se rendia. Admirava a verdade, mas não aceitava a condição que ela exigia, porque seu coração não estava disposto a renunciar os seus desejos mais íntimos. A história registra o que o mantinha cativo: estava envolvido com Herodias, sua sobrinha — que antes havia sido casada com Herodes Filipe I, também seu tio. Herodias abandonou o esposo ainda vivo para unir-se a Antipas, adulterando e violando a Lei. Por isso João Batista o confrontou com firmeza: “Não te é lícito ter a mulher de teu irmão” (Mc 6:18), deixando evidente que a verdade não se curvaria — nem diante de reis, nem diante de poderosos.
Pare um momento para pensar: Quantos hoje também se encantam com a mensagem do amor e do perdão de Cristo, mas rejeitam o caminho de justiça e santidade que conduz à ela? Quanto apreciam a luz do evangelho, mas hesitam diante do custo de caminhar nela? Ainda assim, a Palavra afirma que o convite de Jesus ao seu Reino deve atravessar as portas do arrependimento. Isso se revela não apenas no ministério de João Batista, mas também na vida do próprio Jesus, que inaugurou seu ministério na terra com as mesmas palavras: “Arrependei-vos, porque está próximo o Reino dos céus” (Mt 4:17). E novamente: “O tempo está cumprido, e o Reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no evangelho” (Mc 1:15) — mostrando que a fé verdadeira sempre se evidencia pela mudança de vida. Por fim, os discípulos foram enviados carregando essa mesma mensagem: “Arrependei-vos, pois, e convertei-vos…” (At 3:19).
Biblicamente, o arrependimento não é um peso que nos afasta; é a porta pela qual o amor de Jesus nos alcança. Ao encontrar o Salvador, muitos compreenderam essa verdade. Ninguém permaneceu igual esperando a validação de comportamentos que não refletiam a Sua vontade já revelada. Ao ser visitado por Jesus, Zaqueu rompeu com a vida corrupta e declarou: “Eu restituo quadruplicado” (Lc 19:8). Ao ser perdoada, a mulher adúltera foi advertida: “Vai e não peques mais” (Jo 8:11). Ao ser chamado ao discipulado, Mateus abandonou a mesa dos tesouros sem olhar para trás (Mt 9:9). Ao testemunhar um milagre, Pedro abandonou o seu barco para se tornar pescador de homens (Lc 5:8–11). O evangelho inteiro revela um padrão: todo encontro real com Jesus produz conversão real. “Frutos dignos de arrependimento” (Mt 3:8) — como bem requeriu João Batista.
E foi exatamente essa requisição que Herodes não suportou. Quando a verdade pediu renúncia, o encanto se dissolveu; quando a luz expôs seu pecado sexual, o fascínio virou resistência; quando a mensagem exigiu mudança, preferiu silenciar o mensageiro a permitir que a verdade moldasse o seu coração. De modo que, o mesmo homem que gostava de ouvir o profeta (Mc 6:20) tornou-se responsável por sua decapitação. Certo dia, num banquete em seu palácio, após uma dança sedutora da filha de Herodias, Herodes foi pressionado a cumprir um desejo da moça que — influenciada pela indignação da mãe que havia sido repreendida por seu pecado — foi cirúrgica em seu pedido: a cabeça de João Batista. “E, imediatamente, o rei, enviando um executor, mandou trazer a cabeça de João” (Mc 6:27). Perceba que a cabeça do profeta não terminou numa bandeja por ódio, mas por falta de compromisso — pois apenas apreciar a verdade não sustenta a obediência.
A história de Herodes e João Batista grita uma verdade: a fé do evangelho é séria demais para ser tratada como espetáculo. Ela não é anunciada para entreter, mas para converter; não busca aplausos, mas frutos; não é um ornamento intelectual, mas uma lâmina espiritual — e lâminas cortam: seja a idolatria, feitiçaria, inimizades, heresias, homicídios e toda e qualquer outra obra da carne (Gl 5:19). O Senhor prometeu que "Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça" (I Jo 1:9); pois em todo o tempo é a "Sua bondade que nos conduz ao arrependimento" (Rm 2:4).
Portanto, hoje, tenhamos cuidado para não cairmos no mesmo erro de Herodes: ouvir sem obedecer, sentir sem se render, admirar sem se converter.
Porque não basta gostar de ouvir o evangelho — é preciso mudar.